Diana vive
Martha Medeiros
Ao morrer, as pessoas descansam em paz. Mas nem sempre é assim. A princesa Diana continua sob o foco dos holofotes.
Quase sete anos se passaram desde a morte da princesa Diana, num acidente inesperado, daqueles que a gente costuma chamar de “uma morte rápida”. Mas não foi o caso dela, que até hoje segue sob os holofotes.
De lá pra cá, seu mordomo cometeu inconfidências, seus objetos pessoais passaram de mão em mão, especulou-se que ela estaria grávida, disseram que ela teria tido casos com cantores de rock e que teria acusado o príncipe Charles de querer assassiná-la, e agora vêm à tona declarações suas narrando as opressões de seu casamento, as tentativas de suicídio e outras coisas que não deveriam se tornar públicas, não sem o consentimento de quem não pode consentir mais nada. Descansar em paz, que é a única parte boa de morrer, nem isso Diana teve a sorte.
Outro dia estava lendo um artigo interessante que dizia que na morte ficamos muito mais indefesos do que na vida, pois a posteridade é infinitamente mais longa do que os dias vividos. É verdade. Depois que a gente se vai, os outros deitam e rolam in memoriam.
Em tese, todas as pessoas gostariam de viver para sempre. Não podendo, buscam uma imortalidade possível através do que realizaram, tentam deixar algo que lhes sobreviva: filhos, netos, missões bem-sucedidas. Pessoas querem virar nome de rua, de museu, de biblioteca. Nome de praça. De biscoito. Qualquer coisa, menos morrer bem morridas. Um desejo absolutamente legítimo: vencer a morte com a única arma capaz disso, a lembrança.
Esta prorrogação pode ser uma vantagem, mas também pode ser uma arapuca. Ok, os célebres virarão nome de rua, terão monumentos erguidos em sua homenagem, serão estudados nas escolas... mas, se além de célebres, forem ídolos pop, terão suas gavetas vasculhadas em busca de fotos inéditas, terão seus diários publicados, seus fios de cabelo leiloados. Gente que o morto mal conhecia dará entrevistas intitulando-se amigo de infância. Biografias seguirão sendo escritas e, milagrosamente, terão versões atualizadas. O morto seguirá “vivendo” por muito mais tempo na morte do que viveu em vida.
E mesmo que tudo seja verdadeiro e fundamental como documento da história, convenhamos: não é mole ficar à mercê de uma glorificação – ou tripudiação – futura.
A princesa Diana era infeliz mas não era totalmente descerebrada. Sabia que, sendo um ícone, até seus espirros viravam notícia. Nem assim foi discreta – as tais declarações que ganharam o mundo semana passada não foram gravadas clandestinamente, ela sabia o que estava fazendo. Só não sabia que iria morrer ainda jovem, antes de aprender a controlar sua língua solta. Se ela tivesse morrido bem velhinha, durante o sono, como aconteceu com a rainha mãe pouco tempo atrás, Diana não só teria tido uma vida mais longa: teria também uma morte mais curta.
Domingo, 14 de março de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.